REFLEXÃO - ENTRE O ARGUMENTO E O PARAMENTO

ENTRE O ARGUMENTO E O PARAMENTO

Há provocações que nascem de uma afirmação; outras, de uma pergunta. Esta nasceu de uma pergunta. Recentemente, deparei-me com um editorial que defendia o fim do uso das togas e vestes talares pelos magistrados.* A argumentação me chamou a atenção por uma razão que ultrapassa o universo jurídico. O editorial sustentava que o magistrado não é um ser humano acima dos demais e que determinados sinais exteriores podem afetar a percepção da igualdade perante a Lei. Alguns países da Europa já introduziram mudanças nessa direção. Ao ler aquilo, pensei imediatamente: esta dica também vale para pastores.

Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma equivalência entre magistratura e ministério pastoral. São realidades distintas, com fundamentos, competências e naturezas próprias. A analogia está apenas no campo simbólico: ambas as instituições exercem autoridade pública e, em diferentes contextos históricos, utilizam sinais externos destinados a comunicar a natureza ou a dignidade do ofício. Foi então que me veio a pergunta que levei a alguns grupos de pastores e líderes: alguns paramentos não comunicam uma ideia diversa do sacerdócio universal de todos os crentes?

Não afirmo categoricamente que sim. Eu mesmo apenas pergunto. É uma provocação teológica. E pensar faz bem. Este artigo é fruto dessas conversas e reflexões realizadas em grupos de pastores e líderes. Não nasceu de uma pesquisa planejada para provar uma tese previamente estabelecida, mas de um bate-papo teológico que, como tantas vezes acontece, abriu caminhos para novas perguntas. Houve excelentes argumentos contrários à minha provocação, e é justamente por considerá-los relevantes que desejo apresentá-los aqui. Não para caricaturá-los, mas para dialogar respeitosamente com eles e, ao mesmo tempo, explicar por que continuo inquieto.

Uma das primeiras objeções que ouvi foi bastante razoável. Há uma diferença entre comunicar um sacerdócio exclusivo, o que seria ruim, e comunicar uma autoridade legítima assumida no exercício do ministério, o que é positivo. Concordo com essa distinção. O sacerdócio universal dos crentes não pode ser compreendido como uma espécie de nivelamento absoluto de todos os ofícios, dons e responsabilidades existentes na Igreja. O Novo Testamento estabelece funções, vocações, ministérios e autoridades. Há aqueles que presidem, ensinam, pastoreiam e administram os sacramentos. Existe uma dimensão pública e ordenada do ministério que não pode ser dissolvida em uma compreensão individualista do sacerdócio universal.

O ministro da Palavra possui, portanto, uma especialidade. Ele é despenseiro dos mistérios de Deus. Foi chamado pela Igreja. Recebeu autoridade para exercer publicamente determinadas funções. Pode pregar no culto solene e ministrar os sacramentos. Mas aqui aparece uma distinção que considero fundamental: essa autoridade não é intrínseca ao ministro. Ela lhe é conferida pela Palavra e reconhecida pela Igreja. Esta distinção é essencial para a compreensão reformada do ministério. O pastor não possui em si mesmo uma autoridade sacerdotal que o coloque em uma categoria ontologicamente superior aos demais membros da Igreja. Não existe, na teologia reformada, uma casta sacerdotal mediadora entre Deus e os crentes. O ministro não é um sacerdote de outra espécie. Ele é um ministro. É um servo. É um despenseiro. É alguém que recebeu uma incumbência.

É justamente por isso que a pergunta sobre os sinais externos permanece. Se a autoridade do ministro não reside nele mesmo, mas na Palavra que ele ministra, qual é exatamente a natureza da autoridade que o paramento comunica? Um dos interlocutores apresentou uma distinção importante: a toga não é apresentada como autenticação da Palavra. E, de fato, concordaria com qualquer pessoa que sustentasse que a veste ministerial não torna a pregação autoritativa. A toga não torna a pregação autoritativa, assim como o púlpito, a ordenação ou o fato de somente ministros administrarem os sacramentos também não tornam a Palavra autoritativa. A autoridade está na Palavra de Cristo.

Este ponto é absolutamente fundamental. Minha inquietação não consiste em imaginar que um ministro vestido de toga esteja necessariamente dizendo que sua roupa confere autoridade à Escritura. Seria uma caricatura da posição daqueles que utilizam vestes ministeriais. A questão é mais sutil. É uma questão de linguagem simbólica. Toda roupa comunica alguma coisa. Todo símbolo comunica alguma coisa. Todo espaço litúrgico comunica alguma coisa. O púlpito comunica. A mesa da Ceia comunica. A arquitetura comunica. A disposição dos ministros e da congregação comunica. A liturgia comunica. O corpo também comunica. E, se o corpo comunica, a roupa também comunica.

O sacerdócio de todos os crentes não significa que todos exerçam indistintamente o ministério público da Palavra. Isso seria uma conclusão equivocada. Mas o sacerdócio de todos os crentes não comunica também a ideia de que a Palavra de Deus habita, circula e é confessada no corpo de Cristo? A Palavra não pertence exclusivamente ao ministro. A Palavra pertence à Igreja porque pertence a Cristo. O ministro não é proprietário da Palavra. Não é seu dono. Não é sua fonte. Não é seu sacerdote mediador. Ele é seu servo.

Foi justamente nesse ponto que minha inquietação se aprofundou. Esta preeminência da Palavra na Igreja Primitiva era comunicada pela roupa, pelos paramentos e acessórios, ou pelo conteúdo da autoridade apostólica? Porque deveríamos ter outra autenticação da Palavra, além da própria Escritura inerrante e de autoridade apostólica? Se eu preciso de um artifício externo à Palavra para comunicar minha autoridade docente, talvez eu não a tenha. Ou talvez não compreenda o peso da própria Palavra.

Não estou dizendo que todo símbolo seja inútil. Estou perguntando se, em determinados contextos, podemos atribuir aos símbolos uma função que pertence à própria Palavra. A roupa pode identificar. A ordenação pode reconhecer. O púlpito pode separar espacialmente o momento da exposição. A liturgia pode organizar o culto. Mas nenhum desses elementos produz a autoridade daquilo que está sendo anunciado. A autoridade não reside no artifício, mas na fiel exposição bíblica da doutrina dos apóstolos.

Naturalmente, surgiu o argumento histórico. Mesmo Lutero, talvez aquele que mais falou do conceito do sacerdócio universal, não deixou de lado as vestes litúrgicas. É verdade. Lutero escreveu sobre o sacerdócio universal dos cristãos e, ao mesmo tempo, manteve diversos elementos da tradição litúrgica medieval. Isso precisa ser reconhecido. Entretanto, quando o assunto é eclesiologia e reforma da Igreja, Lutero e Calvino não sentam exatamente à mesma mesa.

Lutero queria reformar a pregação fiel e os sacramentos, mantendo muitas tradições do cristianismo medieval. A tradição Reformada e Puritana, de Zuínglio, Calvino e dos Puritanos, queria algo diferente: a total subordinação da Igreja ao princípio regulador. Se alguma prática foi mantida pelos reformadores, isso não anula a proposta de reforma radical, radix, que visava fundamentar o ministério no Cristianismo Primitivo. É preciso, portanto, distinguir entre aquilo que um reformador fez historicamente e aquilo que constitui necessariamente um princípio normativo para a Igreja.

Usar o argumento da tradição histórica para uma prática não prescrita nas Escrituras não me parece um argumento de grande peso. Isso não significa que toda prática não prescrita explicitamente nas Escrituras seja necessariamente ilegítima. A própria tradição reformada sabe distinguir entre os elementos do culto e as circunstâncias do culto. Significa apenas que a tradição, por si mesma, não deveria encerrar a discussão. A Reforma não começou porque os reformadores decidiram perguntar somente o que a tradição havia feito. Eles perguntaram o que a Escritura dizia.

E aqui está uma das perguntas que continuam me incomodando: nas Escrituras, qual ministro da Palavra foi reconhecido como tal por suas roupas? Não estou falando das vestes sacerdotais do Antigo Testamento, vinculadas ao sacerdócio levítico e à economia mosaica. Estou perguntando pelo ministro cristão da Palavra. Onde encontramos no Novo Testamento a roupa como sinal necessário de reconhecimento do ministro? Qual apóstolo recebeu sua autoridade docente porque vestia determinado paramento? Qual presbítero foi reconhecido como ministro por sua indumentária? Qual pregador do Evangelho teve sua autoridade confirmada pela roupa que usava?

Não encontramos isso. A autoridade apostólica era comunicada pela Palavra que os apóstolos anunciavam, pelo chamado recebido, pela doutrina que ensinavam, pela vida que testemunhavam e pela autoridade de Cristo que representavam. Não pela roupa. Por isso, continuo perguntando: por que deveríamos acrescentar ao ministro contemporâneo um sinal de autoridade que não aparece como mecanismo de reconhecimento do ministro no Novo Testamento?

É uma pergunta, não uma condenação.

Outro argumento apresentado durante a conversa, entretanto, merece consideração. Foi dito que a nossa cultura tende ao oposto. Pastores têm sido vistos como CEOs, administradores, executivos, animadores de auditório. Nesse contexto, uma veste ministerial poderia ser uma correção útil. Ela lembraria à congregação que aquele homem não está ali como CEO de uma organização religiosa, administrador de uma empresa, palestrante motivacional ou animador de auditório, mas como ministro religioso.

Reconheço a força desse argumento. A transformação do pastor em gestor é uma realidade contemporânea. A lógica empresarial invadiu muitos ambientes eclesiásticos. Igrejas passaram a falar cada vez mais a linguagem de desempenho, metas, produtividade, crescimento, gestão e resultados. O pastor, nesse contexto, pode acabar sendo avaliado mais por sua capacidade administrativa do que por sua fidelidade doutrinária, vida piedosa e capacidade de ensinar a Palavra.

Talvez, portanto, uma veste ministerial possa ser uma correção simbólica. Talvez ela diga: este homem está aqui na condição de ministro da Palavra. Não considero esse argumento absurdo. Pelo contrário, considero-o pastoralmente relevante. Mas ainda assim pergunto: precisamos da veste para comunicar isso? Não poderíamos comunicar essa realidade pela própria natureza do culto, pela exposição bíblica, pela oração, pela administração dos sacramentos, pela ordenação, pelo presbitério, pela vida pastoral e pelo próprio conteúdo da mensagem?

Talvez possamos. E, se podemos, então a veste deixa de ser necessária e passa a ser circunstancial. E circunstâncias podem ser úteis. Mas circunstâncias não devem se tornar essenciais.

Talvez seja justamente aqui que esteja a minha maior preocupação: não com o uso da toga em si, mas com o apego excessivo aos elementos acessórios. Muitos não se apegam aos elementos acessórios de forma excessiva? Esta pergunta vale para a toga, mas também vale para muitas outras coisas. Vale para a liturgia, para a arquitetura, para a música, para o púlpito, para a estética do culto, para os títulos, para os cargos, para as plataformas e para os símbolos de autoridade.

A Igreja pode transformar circunstâncias em substâncias. Pode transformar sinais em realidades. Pode confundir reverência com pompa. Pode confundir autoridade com aparência de autoridade. Pode confundir tradição com mandamento. E esse é um risco particularmente sério para uma tradição que confessa, com razão, ter colocado a Escritura novamente no centro da vida da Igreja. Uma Igreja que confessa Sola Scriptura precisa ser permanentemente autocrítica em relação às coisas que acrescenta àquilo que considera essencial.

É importante, nesse ponto, não perder de vista aquilo que significa o sacerdócio universal. Ele não transforma o culto em uma assembleia onde qualquer pessoa pode indistintamente ocupar qualquer função. A Escritura reconhece ofícios, dons, responsabilidades e especialidades. O ministro religioso serve à comunidade de fé com seus conhecimentos, capacitações, habilidades, vivências e experiências da confissão religiosa. Ele deve servir à comunidade com integridade, capacitando-a para o pleno exercício de sua missão.

O ministro não é sacerdote de outra categoria. Ele é servo da Igreja. É um despenseiro. É um ministro da Palavra. É um homem chamado pela Igreja para exercer publicamente um ofício. Essa distinção é importante. O sacerdócio universal elimina uma classe sacerdotal mediadora entre Deus e os crentes. Não elimina os ofícios que o próprio Novo Testamento estabelece na Igreja.

Durante a conversa, alguém lembrou um detalhe particularmente interessante. Na noite em que foi traído, Cristo estava tão igual aos seus discípulos em aparência que a única forma de identificá-lo no meio deles era através do beijo de Judas. A imagem é forte. Cristo não estava vestido de maneira que o colocasse visualmente acima dos discípulos. Não havia uma distância estética que dissesse: aqui está uma categoria diferente de homem. A autoridade de Cristo não precisava de uma toga. Sua autoridade estava em quem Ele era e na Palavra que pronunciava.

É evidente que não podemos transformar esse episódio em uma doutrina contra as vestes ministeriais. Seria um abuso hermenêutico. Mas podemos transformá-lo em uma provocação. Se o próprio Senhor da Igreja não precisou de um sinal externo de superioridade para comunicar sua autoridade aos discípulos, por que seus ministros precisariam? Talvez não precisem. E talvez possam utilizá-lo como circunstância pedagógica. É justamente essa tensão que desejo manter aberta.

Preciso repetir: não sou um iconoclasta. Não considero que um pastor que utiliza toga esteja necessariamente reproduzindo o romanismo. Não considero que todos os paramentos comuniquem sacerdotalismo. Não considero que Lutero, Calvino ou outros reformadores tenham perdido sua autoridade porque usaram vestes ministeriais. Não estou defendendo uma espécie de teologia da roupa simples.

Minha preocupação é teológica e pastoral. Quero saber se aquilo que fazemos comunica aquilo que confessamos. Essa é uma pergunta essencial para qualquer Igreja. A liturgia ensina. A arquitetura ensina. A roupa ensina. Os gestos ensinam. Os títulos ensinam. Os símbolos ensinam. E, justamente porque ensinam, precisam ser submetidos ao discernimento teológico.

Talvez seja necessário voltar ao ponto inicial. O editorial que li falava dos magistrados e levantava a preocupação de que determinadas vestes poderiam produzir uma percepção equivocada de superioridade. O magistrado não é um ser humano acima dos demais. Pensei então: diante dos abusos de autoridade, esta autocrítica não caberia também aos ministros?

Pastores também podem construir imagens de superioridade. Pastores também podem se transformar em personagens. Pastores também podem ser vistos como homens de uma categoria diferente. Pastores também podem gostar dos símbolos de poder. E talvez seja necessário perguntar, de tempos em tempos, se os sinais que utilizamos servem ao Evangelho ou servem ao nosso próprio prestígio.

A questão não é a roupa. A questão é o coração. A questão é a autoridade. A questão é aquilo que comunicamos.

Vivemos dias em que os abusos de autoridade religiosa não são uma possibilidade meramente teórica. Há líderes que se apresentam como homens acima de qualquer questionamento. Há ministros que transformam sua posição em mecanismo de controle. Há pastores que confundem autoridade espiritual com poder pessoal. Há igrejas onde discordar do líder é interpretado como rebelião contra Deus. Nesse contexto, toda forma de autorrepresentação ministerial precisa ser examinada. Não porque todo símbolo seja mau, mas porque todo símbolo de autoridade precisa ser compreendido.

Talvez uma toga diga: sou ministro. Mas será que também pode dizer, ainda que involuntariamente: sou diferente de vocês? E, se disser isso, estamos dispostos a perguntar se esse é realmente o testemunho que desejamos oferecer?

Uma Igreja Reformada não deveria ter medo de reformar também seus símbolos. Ecclesia reformata, semper reformanda. Se estamos convencidos de que a Reforma recuperou a centralidade da Escritura, então precisamos estar dispostos a examinar permanentemente nossas práticas à luz dela. Isso não significa abolir tudo aquilo que não aparece explicitamente no texto bíblico. Significa distinguir. Há elementos essenciais. Há elementos circunstanciais. Há elementos pedagógicos. Há elementos históricos. Há elementos culturais. E há elementos que simplesmente carregamos conosco porque os recebemos da geração anterior.

Nem tudo que recebemos precisa ser abandonado. Mas nada deveria ser preservado apenas porque sempre fizemos assim. Esse é, afinal, um dos legados mais importantes da tradição reformada.

Talvez a pergunta não deva ser apenas se devemos usar toga. Talvez seja muito mais profunda: que tipo de ministro estamos comunicando? Um ministro sacerdote? Um ministro executivo? Um ministro celebridade? Um ministro administrador? Um ministro especialista? Ou um ministro da Palavra?

Se a toga ajudar a lembrar à Igreja que o homem que está diante dela não é um CEO, animador de auditório ou mero indivíduo, mas um ministro da Palavra, talvez haja alguma utilidade nesse símbolo. Mas, se a toga começar a produzir uma percepção de superioridade sacerdotal, talvez seja necessário abandoná-la. E talvez o mesmo princípio precise ser aplicado a outros símbolos. Porque o problema nunca foi a roupa. O problema é aquilo que a roupa pode começar a representar.

Foi exatamente por isso que a notícia sobre os magistrados me provocou. Se a sociedade pode discutir se determinadas vestes judiciais contribuem para uma percepção equivocada da autoridade, por que nós, ministros religiosos, não poderíamos fazer a mesma autocrítica? Se reconhecemos que o ministro religioso possui uma dimensão pública, histórica, sociojurídica, confessional e simbólica, como tenho defendido em minhas reflexões sobre o ministério religioso, então precisamos também reconhecer que os símbolos utilizados pelo ministro participam dessa comunicação pública e, portanto, merecem exame. O ministro não é apenas aquilo que diz ser; ele também é percebido a partir dos símbolos que utiliza. E essa dimensão simbólica não é irrelevante para o testemunho cristão na sociedade. 

Volto, então, à afirmação que fiz naquela conversa: se eu preciso de um artifício externo à Palavra para comunicar minha autoridade docente, talvez eu não a tenha. Ou não compreenda o peso da própria Palavra.

A frase pode parecer dura. Mas é exatamente por isso que ela merece ser examinada. O ministro da Palavra não deveria precisar construir uma aura de autoridade. Sua autoridade deveria nascer da fidelidade àquilo que recebeu. Não é a roupa que deve convencer. É a Escritura. Não é o título que deve convencer. É a verdade. Não é a distância entre o púlpito e os bancos que deve convencer. É a exposição fiel do Evangelho. Não é a solenidade do paramento que deve convencer. É a santidade da mensagem.

O ministro não autentica a Palavra. A Palavra autentica o ministério.

Essa inversão é perigosa quando esquecida.

Afinal, devemos abandonar as vestes? Não sei. E talvez essa seja a resposta mais honesta. Não estou propondo uma resolução eclesiástica. Não estou defendendo que Igrejas Reformadas abandonem imediatamente suas vestes talares. Não estou afirmando que seu uso seja antibíblico. Estou propondo uma autocrítica.

Talvez algumas igrejas tenham boas razões culturais e pastorais para utilizá-las. Talvez outras tenham boas razões para abandoná-las. Talvez uma toga, em determinado contexto, seja uma boa ferramenta pedagógica. Talvez, em outro contexto, seja simplesmente um símbolo desnecessário. O princípio precisa ser maior do que a preferência.

E o princípio, para mim, é este: nenhum símbolo pode ocupar o lugar da Palavra.

O ministro não é sacerdote de uma categoria superior. A Igreja não é dividida entre homens espirituais e homens comuns. O sacerdócio é universal. Os ofícios são distintos. A autoridade ministerial é real. Mas ela é derivada. Ela não nasce do homem. Não nasce da roupa. Não nasce do cargo. Não nasce da tradição. Nasce da Palavra de Cristo e é reconhecida pela Igreja.

Confesso que, naquela conversa, depois de fazer a pergunta, pensei comigo mesmo: dei uma pedrada num vespeiro e saí correndo. Mas a discussão foi boa. Muito boa. 

Eu permaneço fazendo a pergunta.

Não afirmo categoricamente.

Não pretendo estabelecer uma regra para todas as igrejas.

A igreja pode comunicar a mesma realidade sem toga nenhuma. E talvez possa fazê-lo usando uma toga. Mas, em qualquer dos casos, precisamos nos lembrar de uma coisa: a veste não autentica a Palavra. O ministro não é a fonte da autoridade. O paramento não confere poder espiritual. A autoridade está na Palavra de Cristo.

Em setembro de 2026, o jornalista Hélio Schwartsman publicou uma coluna de repercussão na Folha de S.Paulo propondo a abolição do uso cotidiano das togas e do tratamento de "Vossa Excelência". O autor defende que a veste, concebida para sinalizar imparcialidade, passou a simbolizar superioridade e distanciamento incompatíveis com o princípio republicano.




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