REFLEXÃO - O MOTOR SILENCIOSO: O BRASIL QUE AVANÇA APESAR DE SI MESMO.
O Motor Silencioso: O Brasil que Avança Apesar de Si Mesmo
Há notícias que passam quase despercebidas porque não alimentam a indignação das redes sociais nem servem de combustível para a polarização política. No entanto, são justamente estas notícias que, observadas com serenidade, revelam os movimentos mais profundos da história.
A divulgação dos dados do Radar IDHM é uma delas.
O Brasil alcançou a marca histórica de 0,805 e ingressou oficialmente no grupo de nações de "Muito Alto Desenvolvimento Humano". O dado consolida uma série histórica de doze anos, entre 2012 e 2024, atravessando cinco mandatos presidenciais de orientações ideológicas bastante distintas. A constatação é relevante porque demonstra algo que frequentemente esquecemos: o país é maior que os governos que o administram.
Olhar para o Brasil exige uma perspectiva de longa duração.
Há pouco mais de um século, na década de 1920, éramos uma nação essencialmente rural, dependente de uma economia monocultora, marcada por elevados índices de analfabetismo e por uma expectativa de vida que dificilmente ultrapassava os quarenta anos. Hoje somos uma potência agroindustrial e urbana, integrada aos fluxos globais de produção e tecnologia.
A expectativa de vida do brasileiro, que sofreu um duro golpe durante a pandemia, recuperou-se vigorosamente e alcançou a média de 76,6 anos. Milhões de pessoas tiveram acesso à educação, saúde e oportunidades que eram impensáveis para gerações anteriores.
Seria este resultado obra de um único governante? De um partido político específico? De uma ideologia salvadora?
A evidência sugere outra resposta.
Existe um motor silencioso operando sob a superfície da vida nacional. Um conjunto de instituições, conhecimentos acumulados, capacidades produtivas e esforços cotidianos que continua impulsionando o país mesmo em meio a crises políticas, recessões econômicas e turbulências sociais.
O Brasil aprendeu, não sem sofrimento, algumas lições fundamentais.
A estabilidade macroeconômica construída a partir do Plano Real, em 1994, criou condições mínimas de previsibilidade para investimentos e crescimento. Mais recentemente, a autonomia formal do Banco Central reforçou essa capacidade institucional de proteger a moeda e oferecer maior segurança ao ambiente econômico.
Ao mesmo tempo, a revolução científica promovida no campo transformou regiões inteiras do país. O Cerrado, antes considerado inadequado para a agricultura em larga escala, converteu-se em um dos maiores polos de produção de alimentos do planeta. Estados como Mato Grosso e todo o ecossistema econômico do Centro-Oeste tornaram-se símbolos dessa transformação baseada em tecnologia, pesquisa e empreendedorismo.
Somam-se a isso a expansão das redes de proteção social, a universalização do ensino básico e a capilaridade do Sistema Único de Saúde. São estruturas imperfeitas, frequentemente criticadas — e muitas vezes com razão —, mas que impediram que milhões de brasileiros fossem abandonados à própria sorte nos momentos mais difíceis.
São conquistas civilizatórias que sobreviveram à alternância de governos.
Mas todo herói possui uma vulnerabilidade.
Na mitologia grega, Aquiles era praticamente invencível. Sua força, habilidade e resistência o tornavam superior aos demais guerreiros. Contudo, havia um ponto frágil: o famoso calcanhar de Aquiles.
O Brasil também possui o seu.
O mesmo relatório que celebra a marca histórica de 0,805 revela a persistência de uma antiga fragilidade nacional: a desigualdade.
Nosso desenvolvimento continua distribuído de forma profundamente desigual pelo território. Enquanto o Distrito Federal alcança 0,866 e diversos estados do Sul e Sudeste operam em patamares comparáveis aos de países do Leste Europeu, estados do Norte e Nordeste, como o Maranhão, ainda enfrentam dificuldades estruturais relacionadas à renda, infraestrutura e retenção de riqueza.
A desigualdade permanece sendo o grande calcanhar de Aquiles da sociedade brasileira.
O dado torna-se ainda mais evidente quando se aplica ao índice o ajuste referente à desigualdade. Nesse cenário, o Brasil sofre uma redução superior a 20% em sua pontuação, recuando para um patamar compatível com desenvolvimento humano médio.
O contraste é eloquente.
Produzimos riqueza, mas ainda temos dificuldade em distribuí-la. Expandimos oportunidades, mas nem sempre elas alcançam todos os brasileiros. Construímos ilhas de prosperidade cercadas por regiões que ainda aguardam investimentos básicos capazes de promover desenvolvimento sustentável.
Talvez esta seja a principal lição da série histórica.
O desafio brasileiro do século XXI não é descobrir como crescer. Também não é aprender a produzir riqueza. O país demonstrou inúmeras vezes que possui capacidade para ambas as coisas.
O grande desafio nacional consiste em fazer com que a engrenagem do desenvolvimento alcance de maneira mais uniforme os diversos cantos do território brasileiro.
O país real é mais robusto do que sugere o debate público diário. É mais resiliente do que indicam os ciclos de pessimismo. É mais complexo do que permitem os slogans políticos.
Entre erros e acertos, avanços e retrocessos, crises e recomeços, o Brasil continua sua longa caminhada histórica.
E talvez a principal razão para o otimismo seja justamente esta: as conquistas civilizatórias acumuladas ao longo das últimas décadas demonstraram uma capacidade notável de resistir às tempestades políticas e econômicas.
O Brasil, apesar das suas contradições e da classe dirigente, caminha para o seu futuro e concretização.
Rev. Dr. Manoel Gonçalves Delgado Jr.
Teólogo, educador e pesquisador. Diretor do Instituto Bíblico Rev. Augusto Araújo (IBAA) e fundador da Charis EAD.