REFLEXÃO – O OSCAR 2026 E O DESCANSO COGNITIVO
No Oscar 2026, o prêmio anual da academia de cinema americana, uma premiação chamou a minha atenção: o prêmio de melhor ator concedido a Michael B. Jordan, por sua dupla e brilhante atuação no filme Pecadores.
O filme Pecadores (Sinners), dirigido por Ryan Coogler, se passa em 1932, no sul dos Estados Unidos, e acompanha dois irmãos gêmeos interpretados por Michael B. Jordan — Fumaça e Fuligem — que retornam à cidade natal para abrir um clube noturno cuja primeira noite é interrompida por criaturas sobrenaturais perigosas. Combinando terror, drama social e questões raciais, o longa recebeu 16 indicações ao Oscar e venceu 4 estatuetas.
Aqui no Brasil havia uma grande expectativa de que Wagner Moura, o talentoso ator brasileiro, viesse a ser premiado. Independentemente da polarização do País, é inegável que Moura tem capacidade e merecimento para eventualmente ser laureado com o prêmio máximo da Academia. Aliás, como brasileiros estamos ficando — entre aspas — mal acostumados com as regulares indicações brasileiras, o que não surpreende aqueles que conhecem o talento e a capacidade da indústria cultural brasileira.
Mas o que me chamou a atenção neste ano foi o discurso de agradecimento de Jordan. Resumidamente, ele fez três agradecimentos: aos atores negros que o antecederam e abriram o caminho da premiação máxima no cinema. Nenhuma grande problematização a respeito deste tema, apenas a menção de nomes e a profunda gratidão por seu legado. Isso me fez lembrar Pelé, que certa vez, quando questionado por um jornalista sobre por que não desenvolvia pautas da temática racial e da justiça social, sendo negro e famoso, simplesmente respondeu que estar onde estava, e relacionar-se com todos que o esporte e a fama global lhe permitiram, já seria a sua contribuição, uma vez que a sua presença já era o próprio discurso, representação e vitória.
Outro agradecimento foi a Deus e também a seus pais. Sobre a sua família, já na abertura ele diz: “Oi, mamãe… Todos vocês sabem como eu me sinto sobre minha mãe e meu pai. Papai, cadê você? Meu pai veio de Gana para estar aqui. Minha irmã e meu irmão também estão presentes, minha família.”
O que considero especial no agradecimento de Jordan é a sua simplicidade, espontaneidade e leveza. Não vi um ator excessivamente preocupado em tornar sua premiação uma plataforma para discursos problematizados. Não vi a necessidade de causar comoção, engajamento ou recortes para usos outros que não o da finalidade de sua própria arte e da expressão pessoal de sua gratidão e felicidade.
O discurso demodê e simplista de Jordan, desprovido de intenções ativistas, fez um enorme bem àqueles que, como eu, desejam, às vezes, apenas ser gratos a Deus por sua bondade e favor (Vide Tiago 1.17); amados por suas famílias, que tanto batalharam por nossas vitórias; e agradecidos por sua comunidade: colegas de profissão, vizinhos e amigos. E, pasmem, simplesmente assistir a um bom filme.
Jordan, em sua falta de gravidade e criticismo social, e na sua inexistência de desejos lacradores, nos legou algo de que precisávamos de forma veemente: descanso cognitivo, assepsia mental, limpeza da poluição discursiva. Uma expressão singela de gratidão a Deus, valorização da família e valorização dos referenciais que nos antecederam, modelaram a cultura e nos mostraram o caminho.
Jordan, muito obrigado! Os pecadores, cognitivamente cansados, agradecem!