REFLEXÃO - MÜLLER E PALHINHA, OU SOBRE O EQUILÍBRIO HOMEOSTÁTICO DO MINISTÉRIO PASTORAL
“Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas; porque, fazendo isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem.”
1 Timóteo 4:16
Eu tive, há exatos 5 anos, transtorno de ansiedade que evoluiu para uma síndrome do pânico.
Tive que recorrer ao apoio da rede de cuidados, a saber: aconselhamento bíblico e pastoral, psicólogos cognitivo-comportamentais e ajuda médica especializada, com medicação.
Hoje retornei com 70% a 85% do que era capaz de fazer. Porém, tenho sequelas nas pregações e até quando entro numa igreja que é cheia de luzes e superlotação, como nas megaigrejas, e até em cinemas já tive gatilhos!
Estou como professor e diretor de uma instituição teológica e professor requisitado de teologia, e ministro treinamentos locais no lugar de conferências. Continuo entregando alto desempenho, mas precisei mudar radicalmente até mesmo a maneira como leciono e lido com várias rotinas pessoais.
Prego somente quando estritamente necessário, recuso convites de Conferências, substituo por Seminários e treinamentos, se fosse, porém, retomar o ministério local, seria com uma séria adequação do modelo de igreja e da dinâmica de púlpito, o que estou avaliando fazer, mas por razões práticas, e não estéticas ou pragmáticas.
Associo isto ao Müller e Palhinha no São Paulo e depois no Cruzeiro, dois jogadores brilhantes do futebol nacional. Quando precisaram reinventar a forma de jogar para continuar entregando alto desempenho, decidiram trocar o futebol de alta velocidade do início de carreira pelos passes de primeira e posicionamentos assertivos de sua fase madura no Cruzeiro. O resultado? Foram campeões em duas equipes diferentes, em épocas distintas, e entregando um excelente resultado.
Creio que todos constantemente temos este desafio de manter o equilíbrio homeostático do ministério pastoral. O psicanalista Erik Erikson apresenta que temos oito fases de vida, todas com os seus desafios e crises, e acrescente-se a isto situações inesperadas e circunstâncias particulares, e de saúde para sabermos que a nossa vida é um constante rearranjo e adequação.
Lembro-me de ler, no último livro de John Stott, sobre os seus desafios da vida em idade avançada, e como os seus medos e receios mudaram ao longo das fases de sua vida. Manter o equilíbrio e evitar uma queda passaram a ser tema da experiência e da reflexão de um líder outrora vigoroso do evangelicalismo global.
O que nos conforta e encoraja é crermos que o Senhor está e estará conosco em todas as fases da nossa vida e que Ele trará à luz o que devemos fazer em toda e qualquer situação. [vide Salmo 73.22-24]
Precisamos nos adaptar às fases da vida e aos limites do corpo para continuar entregando alto desempenho, sem perder a integridade ou desrespeitar a si mesmo, a Deus e ao ministério que o Senhor nos confiou.
