LEITURA - TIM KELLER. A DINÂMICA ENTRE LIDERANÇA E TAMANHO DA IGREJA: COMO A ESTRATÉGIA MUDA COM O CRESCIMENTO.
RESENHA CRÍTICA
KELLER, Timothy. A Dinâmica entre Liderança e Tamanho de Igreja: Como a Estratégia Muda com o Crescimento.
1. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
KELLER, Timothy. A Dinâmica entre Liderança e Tamanho de Igreja: Como a Estratégia Muda com o Crescimento. Tradução de Viviany Viguier. New York: Redeemer City to City, 2010. Artigo originalmente publicado no The Movement Newsletter (2006) e posteriormente reimpresso na Cutting Edge Magazine, Vineyard USA, Primavera de 2008.
2. APRESENTAÇÃO DO AUTOR
Timothy Keller (1950–2023) foi pastor presbiteriano, teólogo reformado e uma das vozes mais influentes do evangelicalismo urbano nas últimas décadas. Fundador da Redeemer Presbyterian Church, em Nova York, e cofundador da Redeemer City to City, Keller construiu um ministério marcado por rara habilidade: unir fidelidade à teologia reformada clássica com sensibilidade cultural, inteligência missiológica e pragmatismo pastoral bem discernido.
Sua formação acadêmica consistente, aliada à experiência concreta de liderar uma igreja que atravessou diferentes estágios de crescimento, confere ao texto analisado não apenas densidade teórica, mas também autoridade pastoral. Keller não escreve como um observador distante, mas como alguém que viveu os dilemas, tensões e decisões que o crescimento inevitavelmente impõe à vida e à liderança da igreja.
3. PERSPECTIVA TEÓRICA DA OBRA
O texto situa-se no campo da eclesiologia prática, dialogando de modo direto com a teologia reformada, a missiologia urbana e aportes da sociologia organizacional. Keller adota uma abordagem essencialmente analítica e descritiva, baseada na observação pastoral de padrões recorrentes no desenvolvimento das igrejas, sem recorrer a pesquisas estatísticas formais.
Seu método é marcado pela tentativa de nomear fenômenos que muitos líderes vivenciam intuitivamente, mas nem sempre conseguem compreender ou explicar. Ao fazê-lo, Keller evita dois extremos comuns: de um lado, o pragmatismo acrítico, que absolutiza métodos; de outro, o anti-institucionalismo romântico, que idealiza modelos menores como se fossem espiritualmente superiores. O autor propõe, em vez disso, critérios pastorais para discernimento estratégico, reconhecendo que o crescimento, quando ocorre, gera mudanças reais e inevitáveis.
4. BREVE SÍNTESE DA OBRA
A tese central do artigo é simples, porém profundamente desafiadora: o crescimento numérico da igreja altera, de forma inevitável, sua cultura, sua estrutura e o modo como a liderança é exercida. Cada faixa de tamanho gera o que Keller chama de uma verdadeira “cultura do tamanho”, com expectativas próprias quanto a acesso pastoral, informalidade, participação comunitária, tomada de decisões e identidade missionária.
Ignorar essas dinâmicas — ou tentar manter práticas próprias de um estágio anterior — costuma resultar em conflitos internos, esgotamento da liderança, estagnação ou até regressão estrutural.
Para tornar esse argumento inteligível, Keller organiza as igrejas em categorias de tamanho:
Igreja em Domicílio (até 40 frequentadores): funciona como um grupo pequeno ampliado, fortemente relacional, com liderança leiga emergindo de modo orgânico e decisões tomadas de forma informal e democrática. Cresce pelo calor dos relacionamentos, mas rapidamente atinge um limite que exige divisão ou transição estrutural.
Igreja Pequena (40 a 200 frequentadores): preserva expectativas intensas de proximidade pessoal. Líderes leigos exercem forte influência informal, e o pastor atua prioritariamente como cuidador pastoral. À medida que se aproxima da chamada “barreira dos 200”, torna-se indispensável maior formalização e redefinição do papel pastoral.
Igreja Média (200 a 450 frequentadores): o pertencimento passa a ocorrer principalmente por meio de ministérios, classes ou grupos específicos. A liderança é escolhida por dons e competências, e o pastor principal assume função mais clara de treinador e organizador de líderes. O crescimento depende da multiplicação de estruturas ministeriais.
Igreja Grande (400 a 800 frequentadores): os pequenos grupos tornam-se o principal espaço de discipulado e pertencimento. A liderança é fortemente alinhada à visão e missão institucional. O pastor principal concentra-se na pregação e na liderança estratégica, e o culto público assume papel central no crescimento.
Igreja Muito Grande (acima de 800 frequentadores): apresenta elevado potencial missional, multicultural e de impacto social, incluindo plantação de igrejas e ministérios holísticos. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios significativos, como distanciamento relacional, comunicação fragmentada e complexidade na sucessão pastoral.
Ao final, Keller oferece orientações específicas para igrejas de grande porte, destacando a descentralização do poder, a profissionalização da equipe e a centralidade da confiança congregacional como capital organizacional.
5. PRINCIPAIS TESES DESENVOLVIDAS NA OBRA
Entre as ideias centrais defendidas por Keller, destacam-se:
O tamanho da igreja influencia diretamente sua cultura, estrutura e liderança.
Cada estágio de crescimento possui uma lógica própria que precisa ser reconhecida.
O crescimento exige transição consciente de processos informais para estratégias intencionais.
Há uma inversão progressiva entre quem decide e quem executa o ministério.
O papel do pastor principal evolui de cuidador generalista para líder visionário.
Em igrejas maiores, a missão tende a ocupar o centro identitário, acima dos relacionamentos pessoais.
A confiança torna-se o principal ativo organizacional nas igrejas de grande porte.
6. REFLEXÃO CRÍTICA E IMPLICAÇÕES PARA O MINISTÉRIO
(com aplicação ao contexto brasileiro)
A grande virtude do texto de Timothy Keller está em sua honestidade pastoral. Ele deixa claro que não existe um tamanho ideal de igreja, mas estágios distintos, cada um com seus desafios, possibilidades e exigências. Com isso, o autor desmonta tanto a idealização das igrejas pequenas quanto a glamourização das grandes, substituindo slogans por discernimento.
Ao aplicar esse modelo ao contexto brasileiro, torna-se necessário realizar ajustes numéricos e culturais. Fatores como maior dependência pastoral, informalidade administrativa prolongada e limitações estruturais fazem com que os limites de cada estágio se manifestem de modo distinto no Brasil. De forma geral, observa-se maior adequação aos seguintes parâmetros: igrejas em domicílio até cerca de 40 membros; igrejas pequenas entre 40 e 120; médias entre 120 e 400; grandes entre 400 e 1000; e megaigrejas acima desse patamar.
Independentemente dos números, permanece o desafio do chamado “teto de crescimento” — limites impostos não por falta de espiritualidade, mas pela cultura organizacional vigente. Superá-lo exige discernimento espiritual, maturidade institucional e coragem pastoral para promover mudanças estruturais, especialmente na descentralização da liderança, na formalização de processos e na redefinição do papel do pastor, e na criação de equipe pastoral.
Acrescentaria a indagação, como manter um ministério saudável, e biblicamente fiel nos diferentes modelos e culturas de tamanho? Uma resposta que não é simples, mas que orienta cada decisão do ministro cristão comprometido com o real crescimento da Igreja.
Em minha experiência pastoral tive a oportunidade servir em igrejas locais em todas estas faixas de tamanho, e de relatar e supervisionar plantações e processos de revitalização, e considero que esta falta de compreensão sobre o teto, e sobre o que cada fase demandam da liderança, e do ministério local sempre foram evidentes. Existe uma tendência a se sacralizar a estrutura e cultura do tamanho, confundindo-a com a eclesiologia e a vontade normativa de Deus.
Nesse sentido, a proposta de Keller mostra-se não apenas pertinente, mas extremamente necessária ao contexto brasileiro, desde que aplicada com sensibilidade cultural, responsabilidade teológica e fidelidade à missão da igreja.
