LEITURA – ARTIGO QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS “EVANGELICAIS”? BERTIL EKSTRÖN
QUEM SÃO E O QUE FAZEM OS “EVANGELICAIS”? BERTIL EKSTRÖN
Por Manoel Gonçalves Delgado Jr.
EKSTRÖM,
Bertil. Quem são e o que fazem os “evangelicais”? Artigo adaptado da
palestra apresentada no evento “Diálogos na Missão”, promovido pela Faculdade
Teológica Batista de São Paulo, abril de 2017. Ultimato, Viçosa, 12 jul. 2017.
Disponível em: https://www.ultimato.com.br/conteudo/quem-sao-e-o-que-fazem-os-evangelicais.
Acesso em: 8 jan. 2026.
2. APRESENTAÇÃO DO AUTOR
Bertil
Ekström é diretor executivo da Comissão de Missões da Aliança Evangélica
Mundial (WEA), com atuação destacada no cenário missionário e internacional. O
autor escreve a partir de uma perspectiva interna ao movimento evangelical,
assumindo explicitamente sua vinculação histórica e institucional. Ao longo de
mais de duas décadas de envolvimento direto com a WEA, Ekström acumulou
experiência no diálogo entre missões, teologia e espaço público, o que confere
ao seu texto um caráter analítico marcado pela autoconsciência crítica. Sua análise é um panaroma e ao mesmo tempo um testemunho.
Sua
produção reflete o esforço de interpretar o evangelicalismo como um fenômeno global,
plural e em permanente transformação, evitando tanto leituras apologéticas
quanto reduções sociológicas externas. O autor dialoga com historiadores,
teólogos e missiólogos representativos do evangelicalismo contemporâneo,
situando seu artigo no cruzamento entre história da igreja, missiologia e
teologia pública.
3.
PERSPECTIVA TEÓRICA DA OBRA
O
artigo de Ekström insere-se no campo do evangelicalismo crítico de alcance
global, articulando história, missiologia e reflexão pública a partir de
uma perspectiva assumidamente situada. O autor escreve como alguém que “faz
parte deste movimento” e que esteve “por 25 anos diretamente envolvido na
Aliança Evangélica Mundial”, o que confere ao texto um tom analítico
equilibrado, distante tanto da apologia acrítica quanto da caricatura
ideológica.
Teoricamente,
Ekström dialoga com a historiografia clássica do evangelicalismo moderno,
especialmente com David Bebbington e John Stott, assumindo como
eixos estruturantes do movimento a autoridade das Escrituras, a centralidade da
obra redentora de Cristo, a conversão pessoal e o testemunho cristão expresso
em palavras e obras. Esses fundamentos funcionam como critérios mínimos de identidade,
mesmo diante da diversidade denominacional e cultural do movimento.
A
abordagem missiológica do artigo é fortemente influenciada por David Bosch,
sobretudo na compreensão do evangelicalismo como um movimento em transição
paradigmática. Ekström reconhece que a missão cristã deixou de operar
exclusivamente a partir de modelos expansionistas e eclesiocêntricos, passando
a incorporar uma visão mais integral, contextual e pública.
Nesse
processo, o autor atribui papel decisivo ao Movimento de Lausanne,
especialmente a partir do Congresso de 1974 e de seus desdobramentos
posteriores (Manila 1989 e Cidade do Cabo 2010). Lausanne aparece como um marco
na tentativa de superar tanto o fundamentalismo sectário quanto uma assimilação
liberal da fé, reafirmando a autoridade bíblica ao mesmo tempo em que amplia o
horizonte da missão para o engajamento social.
Outro
interlocutor relevante é Michael Goheen, cuja leitura da igreja
missional e da missão no contexto da cultura contemporânea converge com a
análise de Ekström, especialmente no reconhecimento dos desafios do pluralismo
religioso, da urbanização e da contextualização teológica.
Considero
essa perspectiva teórica particularmente útil, pois permite compreender o
evangelicalismo como um campo dinâmico de tensões entre confessionalidade,
missão integral e engajamento público. Apesar das ambiguidades internas —
sobretudo no que diz respeito ao ecumenismo, à política e à contextualização —,
trata-se de uma das análises mais equilibradas do grupo de cristãos evangélicos
que desejam permanecer fiéis às Escrituras, comprometidos com a evangelização e
envolvidos de forma responsável com a sociedade.
4.
BREVE SÍNTESE DA OBRA
Ekström
inicia seu artigo destacando a dificuldade histórica e conceitual de definir
quem são os “evangelicais”. Segundo o autor, o termo é frequentemente utilizado
de maneira imprecisa, sobretudo quando transposto do contexto anglófono para
outras realidades culturais. Muitas dessas definições são construídas “pelos de
fora do movimento, frequentemente de forma crítica”, o que contribui para
generalizações indevidas e para a associação automática do evangelicalismo com
o fundamentalismo .
Na
sequência, o autor apresenta os fundamentos teológicos comuns que, apesar da
diversidade global do movimento, funcionam como seu núcleo identitário. Recorre
à formulação de Bebbington, complementada por John Stott, para destacar a
autoridade das Escrituras, a centralidade de Cristo, a conversão pessoal e uma
vida cristã marcada pela santidade, pela evangelização e pelo envolvimento
social.
No
desenvolvimento histórico, Ekström localiza as raízes do evangelicalismo na
Reforma Protestante, com desdobramentos mais diretos no Pietismo alemão, no
Puritanismo inglês e no Metodismo do século XVIII. A partir desses movimentos,
descreve a influência decisiva do evangelicalismo na expansão missionária
moderna, especialmente por meio das sociedades missionárias e dos grandes
congressos internacionais do início do século XX, com destaque para a
Conferência Missionária de Edimburgo (1910).
Um
ponto central da síntese é a análise da polarização ocorrida no início do
século XX, com o fortalecimento do fundamentalismo como reação conservadora ao
liberalismo teológico e ao modernismo. Ekström demonstra como esse processo
produziu tanto posturas sectárias e anti-intelectuais quanto respostas internas
que buscaram preservar a ortodoxia sem romper com a academia e o espaço
público.
É
interessante que para o autor o evangelicalismo é anterior a controvérsia
fundamentalista-liberal, e suas origens seriam europeias e não exclusivamente
norte americanas.
Nesse
contexto, o autor destaca a emergência do chamado “novo evangelicalismo”,
associado a figuras como Billy Graham, Carl F. H. Henry e John Stott. A crítica
de Henry ao “sectarismo estreito e intolerante” do fundamentalismo moderno e
sua defesa de um evangelho que não seja “indiferente às necessidades do homem
integral” marcam uma inflexão decisiva na história do movimento.
Essa
inflexão encontra sua expressão mais madura nas conferências do Movimento de
Lausanne, onde se consolida a noção de missão integral, profundamente
influenciada por teólogos do Sul Global, como René Padilla e Samuel Escobar.
Lausanne passa a funcionar como um ponto de convergência entre fidelidade
bíblica, evangelização e responsabilidade social.
5.
PRINCIPAIS TESES DESENVOLVIDAS NA OBRA
O
artigo sustenta, entre outras, as seguintes teses centrais:
- O
evangelicalismo é um movimento plural e global, não homogêneo;
- Sua
identidade não pode ser definida por uma única tradição denominacional ou
subcultura;
- Existem
fundamentos teológicos mínimos que conferem unidade ao movimento;
- O
fundamentalismo representa apenas uma de suas expressões históricas, não
sua totalidade;
- O
evangelicalismo contemporâneo passa por uma transição paradigmática em
direção à missão integral;
- O
diálogo com a sociedade, outras tradições cristãs e religiões é
inevitável, embora tenso;
- Persistem
disputas internas entre confessionalidade, contextualização e engajamento
público.
6.
REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A OBRA E IMPLICAÇÕES PARA O MINISTÉRIO
A
análise de Ekström é particularmente relevante para compreender o deslocamento
semântico do termo “fundamentalismo”, que extrapolou seu contexto histórico
original — a controvérsia liberal-conservadora do protestantismo
norte-americano — e passou a designar genericamente posturas religiosas
percebidas como intolerantes, violentas ou anti-intelectuais. Esse deslocamento
torna o termo inadequado como autodefinição teológica cristã no espaço público
contemporâneo.
Nesse
sentido, uma fé genuinamente evangelical deve operar em dupla recusa: rejeitar
tanto os paradigmas sincréticos ou ecumênicos que relativizam o conteúdo
confessional quanto a pecha de fundamentalista associada à ruptura com a
sociedade, à intolerância e ao anti-intelectualismo. A tolerância, portanto,
não pode ser confundida com assimilação cultural, relativismo doutrinário ou
submissão ao pluralismo pós-moderno, mas deve expressar-se na convivência
pública plural, respeitosa e intelectualmente honesta, com livre trânsito de
ideias, sem diluição de sentido.
Creio
que o autor poderia ter desenvolvido mais as tensões do movimento, com as críticas
ao marxismo e influências da TDL e das teologias contextuais de um lado, e no
fundamentalismo e suas alianças com posições nacionalistas e de extremismo
político e ideológico de outro.
Do
ponto de vista pastoral, a obra de Ekström contribui para a formação de líderes
capazes de sustentar convicções teológicas firmes sem beligerância, dialogar
com a cultura sem renunciar à confissão e ocupar o espaço público com
maturidade teológica e responsabilidade ética. Trata-se, em última instância,
de uma contribuição significativa para a construção de uma teologia pública
evangelical, fiel às Escrituras, comprometida com a evangelização e atenta
às demandas e desafios da sociedade contemporânea.
