REFLEXÃO - MANDELA E AS CORES DA POLARIZAÇÃO.

Reflexão — Mandela, polarização e reconciliação.

Discutir postumamente “as cores” ideológicas de Nelson Mandela — tanto as suas quanto as de seus admiradores contemporâneos — parece caminhar na contramão de sua luta histórica pela igualdade e em favor da dignidade humana.

Julgar o seu passado anterior à prisão, ou, de modo semelhante, depreciar o passado de seus opositores, significa desconsiderar o espírito de reconciliação que marcou a transição sul-africana e ignorar o significado simbólico da luta que Mandela passou a representar após sua libertação. A África do Sul não foi reconstruída a partir da negação seletiva da história, mas da decisão política e moral de não permanecer prisioneira dela.

Tentar desconstruir Mandela em nome de episódios de seu passado, ou, no extremo oposto, monopolizar sua memória como patrimônio exclusivo de um único segmento político-ideológico, é demonstrar — em termos práticos — profunda incompreensão do que ele representa hoje para muitos de nós:
a possibilidade real de superação de diferenças, de ressentimentos históricos, e a afirmação de que pertencemos ao mesmo gênero humano, portadores de dignidade intrínseca, independentemente do tipo de pessoa que sejamos, das opiniões que adotemos ou da cor estampada em nossa pele.

Nesse sentido, talvez seja legítimo afirmar que o verdadeiro legado de Mandela não está disponível para uso retórico fácil, nem para disputas simbólicas imediatistas. Ele nos confronta justamente quando preferimos acentuar divisões em vez de superá-las.

Seria desejável que as políticas públicas contemporâneas caminhassem mais decididamente na direção da reconciliação e da superação das diferenças, e menos no sentido de aprofundar clivagens sociais em nome de projetos identitários mal conduzidos. Algumas iniciativas — ainda que revestidas do discurso das ações afirmativas — acabam por reacender ódios e ressentimentos históricos, reforçando polarizações que dificultam o convívio democrático.

Nesse ponto, vale mencionar criticamente experiências como as comissões da verdade, que, ao não se comprometerem com toda a verdade — recusando-se a examinar violações de direitos humanos em ambos os lados do espectro social — tampouco conseguem promover reconciliação autêntica. Verdade parcial dificilmente gera cura coletiva; justiça seletiva raramente produz paz.

Por isso, a contribuição de Mandela permanece atual e profundamente pertinente ao debate social brasileiro. Seu legado nos lembra que a reconciliação não é ingenuidade, mas coragem política; não é esquecimento da história, mas sua ressignificação ética.

Nota editorial:
Este texto trata do debate público e da polarização ideológica desencadeados por ocasião da morte de Nelson Mandela, e não de uma análise biográfica exaustiva de sua trajetória.
Texto originalmente publicado em minhas redes sociais em 7 de dezembro de 2013, agora revisto e ajustado para publicação no blog, com preservação do rigor conceitual e do sentido original.



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