REFLEXÃO - EQUIDADE ALGORÍTMICA. Justiça distributiva em um mundo pós-trabalho

 Equidade Algorítmica

Justiça distributiva em um mundo pós-trabalho

Vivemos uma transição histórica silenciosa, mas profunda. A automação industrial, os sistemas algorítmicos e a inteligência artificial estão redesenhando a produção, o trabalho e, consequentemente, a forma como a sociedade organiza renda, dignidade e pertencimento social. Diferentemente de outras revoluções tecnológicas, esta não substitui apenas o esforço físico, mas também funções cognitivas, administrativas e criativas. O resultado é um cenário cada vez mais plausível de um mundo pós-trabalho, no qual a maioria das pessoas não será necessária para a produção econômica tradicional.

Nesse contexto, torna-se inevitável a pergunta: como garantir a existência material, o bem-estar e a liberdade humana quando o trabalho deixa de ser o eixo organizador da vida social?

Autores contemporâneos como Yuval Noah Harari têm insistido que a resposta não pode ser simplesmente moral ou cultural, mas estrutural. A emergência de uma massa humana economicamente “dispensável” exige novos arranjos distributivos. É nesse ponto que propostas como a renda mínima universal reaparecem com força, curiosamente defendidas por liberais, sociais-liberais, keynesianos, social-democratas e até por correntes conservadoras¹.

No entanto, embora necessária, a renda mínima universal apresenta limites claros. Ela garante um piso, mas não responde adequadamente às diferenças reais entre as pessoas. Tratar todos igualmente não significa tratar todos de forma justa. Pessoas com deficiências, com históricos médicos complexos, com responsabilidades familiares ampliadas ou marcadas por desigualdades históricas não partem do mesmo ponto. É justamente nesse espaço que surge o conceito que proponho: Equidade Algorítmica.

A equidade algorítmica parte de uma distinção fundamental entre igualdade e equidade. Igualdade distribui o mesmo; equidade distribui o necessário. Em um mundo pós-trabalho, insistir apenas na igualdade pode se tornar uma nova forma de injustiça. O que se propõe aqui é um mecanismo universal de cálculo e distribuição de renda e serviços, baseado em regras comuns, mas sensível às particularidades humanas.

Em termos simples, trata-se de um sistema que combina:

  • um piso universal de existência, garantindo a sobrevivência básica;

  • créditos categorizados (educação, saúde, moradia, mobilidade, cultura);

  • e ajustes personalizados, realizados por sistemas algorítmicos transparentes, que consideram necessidades objetivas e contextuais.

Créditos educacionais, por exemplo, não estariam limitados a instituições formais. Poderiam ser aplicados em qualquer iniciativa direta ou indiretamente alinhada à educação: cursos livres, mentorias, formação técnica, produção intelectual ou requalificação profissional. Da mesma forma, créditos de saúde não se restringiriam a tratamentos tradicionais, mas abrangeriam exercícios físicos, prevenção, nutrição e cuidado integral².

Um ponto decisivo dessa proposta é a liberdade relativa. O sistema não determina como a pessoa deve viver, mas estabelece categorias e limites éticos dentro das quais o indivíduo escolhe. Isso preserva a dinâmica da natureza humana, o senso de mérito, a criatividade e a autonomia, sem colocar em risco a existência básica.

Outro elemento central é o modelo de provisão. A equidade algorítmica não exige um único tipo de Estado. Estados mais centralizadores poderiam operar sistemas públicos diretos. Estados liberais poderiam permitir que empresas privadas, cooperativas, startups e organizações filantrópicas atuassem como provedores de renda e serviços, desde que obedecessem a regras básicas compartilhadas. O cidadão escolheria seu provedor. Os recursos seriam distribuídos conforme o número e o perfil dos usuários, incentivando concorrência, inovação e melhoria contínua.

Esse desenho híbrido evita tanto a planificação total quanto o abandono social. Ele reconhece que diferentes modelos políticos podem aderir ao conceito maior, sem necessidade de homogeneização ideológica³.

Naturalmente, surgem objeções sérias. Uma delas diz respeito ao risco de uso autoritário: e se uma autocracia futura usar esse sistema para controlar, silenciar ou perseguir dissidentes? Essa objeção não pode ser ignorada. No entanto, a possibilidade de abuso futuro não invalida o uso ético presente. Toda tecnologia significativa — da escrita ao dinheiro, da imprensa à internet — foi passível de instrumentalização opressiva. A resposta adequada não é a recusa da tecnologia, mas a construção de salvaguardas institucionais, transparência algorítmica, direito de recurso e governança plural⁴.

Outra objeção frequente, especialmente em contextos religiosos, associa sistemas globais de controle econômico à ideia de um “sistema mundial do anticristo”. Como teólogo e homem de fé, compreendo esse temor. Ainda assim, é preciso distinguir entre escatologia simbólica e responsabilidade histórica concreta. O avanço tecnológico é inevitável. A omissão ética diante dele não é neutralidade, mas abandono do cuidado com o próximo. Usar bem a tecnologia hoje não legitima seu uso indevido amanhã⁵.

A equidade algorítmica também não elimina o mérito. Pelo contrário: ela cria condições reais para que mérito exista. Ninguém compete de forma justa quando parte da fome, da doença ou da exclusão estrutural. Ao garantir o básico e ajustar desigualdades de partida, o sistema permite que a contribuição individual tenha sentido e reconhecimento.

Em termos de governança, trata-se de um modelo transnacional, mas não totalitário. Um sistema de princípios compartilhados, com implementação local, auditorias independentes e participação social. Não um governo mundial, mas uma infraestrutura ética comum, adequada a um mundo interconectado.

O valor dessa ideia não está apenas em sua eventual monetização, mas em seu potencial civilizacional. Ela pode gerar consultorias, pesquisas, projetos-piloto e desenvolvimento tecnológico, mas sobretudo oferece uma gramática nova para pensar justiça social no século XXI.

A equidade algorítmica não é uma utopia fechada. É uma hipótese histórica. Um convite ao debate. Um ensaio sobre como preservar dignidade, liberdade e responsabilidade em um mundo onde o trabalho deixa de ser o centro da existência humana.


Notas explicativas

  1. A renda mínima universal é defendida por autores de campos distintos, como Milton Friedman (imposto de renda negativo), economistas keynesianos, sociais-democratas e pensadores contemporâneos como Rutger Bregman e Philippe Van Parijs.

  2. Essa ampliação do conceito de saúde dialoga com a noção de bem-estar integral e prevenção, não apenas tratamento de doenças.

  3. O modelo evita impor um único arranjo estatal, permitindo adesão tanto de Estados centralizadores quanto de Estados liberais.

  4. Transparência algorítmica, auditoria independente e direito de contestação são elementos indispensáveis para evitar abusos.

  5. A crítica teológica aqui não nega riscos escatológicos, mas rejeita a paralisia ética diante do sofrimento humano concreto. 

Nota Editorial 

Texto redigido com o auxílio de recursos de Inteligência Artificial, a partir de ideias originais do autor, com organização conceitual, curadoria teórica e revisão final integralmente realizadas pelo autor.

Síntese: "Texto que apresenta e desenvolve o conceito de equidade algorítmica, formulado pelo Teólogo Público Manoel Gonçalves Delgado Jr., como uma proposta ética e distributiva para garantir justiça social, dignidade humana e liberdade em um mundo pós-trabalho marcado pela automação, pelos sistemas algorítmicos e pela inteligência artificial."


Nota sobre o autor

Manoel Gonçalves Delgado Jr. é Doutor em Ministério Pastoral, teólogo público, pesquisador em ética social, tecnologia e fé, com atuação nas áreas de teologia prática, missiologia e reflexão cristã sobre os desafios contemporâneos. Vive no Brasil e desenvolve projetos acadêmicos e pastorais voltados à interface entre fé, cultura, tecnologia e justiça social.


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