REFLEXÃO - REDES SOCIAIS: SELVA DIGITAL OU JARDIM DE BOAS PALAVRAS?

Redes Sociais: Selva Digital ou Jardim de Boas Palavras?

Em um mundo conectado por likes, stories e compartilhamentos incessantes, impõe-se uma pergunta incômoda, porém necessária: ter-se-iam as redes sociais transformado em uma selva impiedosa ou ainda poderiam ser cultivadas como um jardim de boas palavras? A resposta não é simples, mas exige reflexão honesta e discernimento espiritual.

Para muitos, as redes sociais são vitrines de conexão, entretenimento e informação. Para mim, entretanto, tornaram-se uma arena de batalhas invisíveis — um território onde a mente e as emoções são continuamente tensionadas, testadas e, não raro, feridas.

Não é segredo que líderes das grandes Big Techs limitam severamente o uso das redes sociais na vida de seus próprios filhos e pessoas próximas. Tal cautela não é fruto de paranoia, mas de conhecimento: os mecanismos psicológicos, os gatilhos emocionais e os sistemas de recompensa artificial que essas plataformas acionam produzem consequências psicoemocionais profundas e, muitas vezes, silenciosas.

Em síntese, redes sociais mal utilizadas — ou utilizadas sem ordem, critério e finalidade — podem tornar-se fontes de adoecimento emocional e espiritual. São tão perigosas quanto a sacada do palácio de onde um Davi ocioso contemplou Bate-Seba: o lugar da distração antecede, quase sempre, o terreno da queda.

Três formas de adoecimento

Tentação sexual:
A exposição contínua — muitas vezes involuntária — a conteúdos sensuais compromete a pureza do olhar e adoece a alma, dessensibilizando a consciência e enfraquecendo a vigilância espiritual.

Polarização e manipulação:
Os algoritmos não promovem diálogo, mas extremos. A cada rolagem, somos empurrados para trincheiras ideológicas, perdendo a capacidade de escuta, empatia e discernimento, essenciais à vida cristã e ao convívio social.

Comparações e críticas:
Diante de vidas aparentemente perfeitas, ministérios bem-sucedidos e conquistas alheias cuidadosamente editadas, emergem ressentimentos, frustrações e inseguranças. Soma-se a isso o peso de críticas proferidas por quem desconhece nossa história, mas que, ainda assim, consegue nos abater com uma única frase.

O propósito redimido

Reconheço, contudo, que as redes sociais podem ser instrumentos úteis — plataformas para a comunicação de boas palavras e a divulgação responsável do ministério. Ainda assim, não as percebo como jardins destinados à contemplação despreocupada, mas como selvas que exigem cautela, vigilância e propósito claro. Devem ser atravessadas apenas quando estritamente necessário.

Um método de sobrevivência

Diante disso, adotei um método simples, porém eficaz:

  • Acesso limitado: apenas uma vez por semana.

  • Ambiente controlado: exclusivamente no computador do escritório.

  • Finalidade clara: evitar o uso impulsivo e preservar o foco ministerial.

Essa disciplina digital tem sido um instrumento de preservação da saúde emocional e espiritual. Menos acesso resulta em mais clareza; menos ruído, em maior leveza da mente e do coração.

Como bem observou John Piper, as redes sociais servirão, no Dia do Juízo, como evidência de que tínhamos tempo disponível para a leitura das Escrituras, para o estudo diligente e para a oração — e, ainda assim, escolhemos distrações.

Se você também percebe que as redes sociais têm drenado sua energia vital, talvez seja tempo de reavaliar seu uso. Que deixem de ser selva e passem a ser solo fértil — onde se planta com propósito e se colhe com sabedoria.

Como adverte Cantares de Salomão 2:15:
“Apanhem para nós as raposas, as raposinhas que estragam as vinhas, porque as nossas vinhas estão em flor.”

Síntese

Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre o uso das redes sociais à luz da saúde emocional, espiritual e ética cristã. Ao reconhecê-las não como espaços neutros, mas como ambientes moldados por algoritmos, estímulos e interesses, o autor alerta para seus potenciais efeitos nocivos — tais como a tentação, a polarização e a comparação destrutiva. Sem demonizar a tecnologia, defende-se um uso disciplinado, intencional e pastoralmente responsável, no qual as redes deixam de ser uma selva de distrações e passam a ser atravessadas com prudência, propósito e vigilância espiritual.


Autor

Manoel Gonçalves Delgado Jr. é Doutor em Ministério Pastoral, teólogo público e pesquisador nas áreas de ética social, tecnologia e fé. Atua nos campos da teologia prática, missiologia e reflexão cristã sobre os desafios contemporâneos, com especial atenção à interface entre fé, cultura digital e justiça social. Vive no Brasil, onde desenvolve projetos acadêmicos e pastorais voltados à formação crítica, espiritual e ética da liderança cristã.




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